Eu sei que muita gente aqui olha pra mim e pensa:
"De novo?"
De novo na mesma série.
De novo no mesmo corredor.
De novo na mesma chamada.
De novo ouvindo professor falar meu nome como se ele viesse com um asterisco.
E eu até entendo.
Porque, de fora, parece simples.
Parece que eu não tentei.
Parece que eu larguei.
Parece que eu fui ficando pra trás enquanto todo mundo andava.
Mas tem coisa que não aparece no boletim.
No começo do ano, eu entrei aqui otimista.
Juro.
Comprei caderno novo.
Caneta nova.
Fiz até promessa ridícula de não faltar, de entregar trabalho no prazo, de sentar na frente.
Aí meu pai morreu.
E não foi uma morte quieta.
Não foi uma coisa que aconteceu dentro de casa, com a família sabendo primeiro, com tempo de fechar a porta, respirar, entender.
Foi notícia.
Um helicóptero bateu em outro.
Inexplicavelmente.
Essa é a palavra que todo jornal usou: inexplicavelmente.
Saiu na televisão.
Saiu no celular dos outros.
Saiu nos grupos de WhatsApp.
Saiu antes de chegar em mim.
Todo mundo soube antes de mim.
Eu cheguei na escola e já tinha gente olhando diferente.
Gente sem saber se vinha abraçar.
Gente querendo saber se era verdade.
Gente que nem falava comigo perguntando detalhe.
E eu ainda nem tinha entendido que era meu pai.
Então, quando vocês falam que eu repeti o ano, eu queria perguntar:
qual ano?
Porque aquele ano não passou normal pra mim.
Ele ficou preso naquele barulho que eu não ouvi, mas todo mundo descreveu.
Na imagem que eu não vi, mas todo mundo comentou.
No acidente que virou assunto antes de virar luto.
Eu não estou pedindo pena.
Eu só queria, uma vez, não ser resumida à repetente.
Eu repeti, sim.
Mas também continuei vindo.
Continuei entrando por esse portão.
Continuei sentando naquela cadeira com todo mundo sabendo alguma coisa sobre mim que eu mesma ainda não conseguia falar.
Então, se esse discurso é sobre o ano, o meu foi esse.
Um ano em que eu não passei.
Mas também não desapareci.
E, sinceramente, às vezes isso já é alguma coisa.
Delegado, eu só tô dizendo o que todo mundo viu.
Ou melhor: o que ninguém quis ver.
Porque, de todos os moradores, o único que não comentou sobre o apagão foi ele.
E convenhamos, né?
Justamente quem mais tinha a ganhar com aquilo.
O senhor pode achar coincidência.
Eu, particularmente, não acredito tanto assim em coincidência quando tem disjuntor envolvido.
A luz não caiu no bairro inteiro.
Não caiu na rua de cima.
Não caiu no prédio da esquina.
Não caiu nem na padaria, que vive com aquele freezer velho ameaçando explodir.
Foi só ali.
Só ali.
E sem explicação.
Agora me diga: que tipo de apagão escolhe endereço?
Porque pra mim alguém foi lá, desligou e religou.
Simples.
Direto.
Como quem abre uma geladeira de madrugada achando que ninguém vai ouvir.
Só que essa pessoa tinha uma lanterna.
E não uma lanterna qualquer.
Uma lanterna pendurada no chaveiro, delegado.
O homem anda com aquilo pra cima e pra baixo.
Todo mundo já viu.
Agora, eu não tô acusando ninguém.
Não me entenda mal.
Eu sou só um cidadão colaborando.
Mas se eu fosse o senhor, eu começava pelo disjuntor.
Pega impressão digital.
Pega poeira.
Pega qualquer coisa.
Porque eu dou minha cara a tapa: se tiver dedo ali, não é meu.
E o senhor sabe.
Sabe porque eu tô aqui falando demais, né?
Quem inventa história fala pouco.
Quem viu coisa errada tenta explicar.
E eu tô tentando explicar porque tem coisa nesse bolo.
Esse sujeitinho eu li de primeira.
Sabe aquele tipo que fica quieto demais?
Que não pergunta nada?
Que não estranha nada?
Pois é.
Enquanto todo mundo gritava, ele tava calmo.
Calmo demais pra quem tava no escuro.
E gente calma demais no escuro, delegado...
ou já sabia onde ficava a saída,
ou foi quem apagou a luz.
Beleza.
A luz apagou.
Tranquilo.
Eu só tô sozinho em casa.
Completamente sozinho.
Quer dizer…
sozinho?
Não.
Não, não tô sozinho.
Porque quando a gente tá sozinho de verdade, a casa faz um tipo de barulho.
O barulho normal.
Geladeira.
Madeira estalando.
Vizinho arrastando cadeira.
Agora esse silêncio aqui…
esse silêncio tá cheio demais.
Se tiver alguém aí, já vou avisando: não mexe na minha geladeira.
Eu só tenho comida de ontem.
E eu ia requentar hoje, então, por favor, respeita pelo menos minha janta.
E outra: é melhor ir embora antes que eu ligue pro delegado.
De novo.
Porque sim, eu já liguei uma vez.
E sim, ele achou exagero.
Mas agora a luz caiu só aqui.
Só na minha casa.
Na rua inteira, tudo aceso.
A janela da Dona Célia acesa.
A farmácia acesa.
A placa da pizzaria piscando como se nada tivesse acontecido.
Só aqui.
Então não vem me dizer que foi coincidência.
Alguém desligou.
Alguém foi lá fora, mexeu em alguma coisa, voltou para algum lugar e agora está se divertindo.
Às minhas custas.
Muito engraçado.
Parabéns.
Mas ó: não vão mais me pegar desprevenido.
Eu tô com um isqueiro.
Não é exatamente uma arma, eu sei.
Mas fogo é fogo.
E eu vou levantar.
Vou andar até a porta.
Vou descobrir quem tá aí.
E quando eu descobrir…
quando eu descobrir…
Olha, se você for embora agora, eu finjo que foi o vento.
Mas se eu chegar aí e tiver alguém…
aí você vai ter que me explicar por que minha casa sabe que você entrou antes de mim.
Não olha pra mim desse jeito.
Por favor.
Eu sei.
Eu sei o que parece.
Mas você precisa me ouvir antes de decidir que eu sou… isso que você tá pensando.
Eu perdi o controle por um segundo.
Um segundo.
Depois de anos respirando baixo nessa casa.
Depois de anos ouvindo mentira.
Depois de anos fingindo que não via.
Aquela mulher da academia.
As noites sumindo.
O celular virado pra baixo.
Essa história de divórcio como se eu fosse um móvel que ele podia tirar da sala.
Eu aguentei.
Eu aguentei mais do que muita gente aguentaria.
E eu achava que isso era ser forte.
Achava que ser forte era ficar.
Era engolir.
Era manter a família em pé mesmo quando só eu estava segurando a parede.
Mas aí ele falou de você.
Ele disse que ia te levar.
Que ia provar que eu estava ficando maluca.
Que ia me internar.
Me internar.
Como se eu fosse o problema.
Como se tudo que eu fiz para manter essa casa respirando fosse doença.
E aí…
alguma coisa dentro de mim estalou.
Não foi ódio.
Não começa achando que foi ódio, porque não foi.
Foi medo.
Foi aquele medo antigo, de mulher que entende rápido demais o que acontece quando ninguém acredita nela.
Eu fiz isso por nós duas.
Você entende?
Eu precisava garantir que ele nunca…
nunca…
ia te tirar de mim.
Não chora.
Não chora agora.
Olha pra mim.
A culpa não é sua.
Nunca foi sua.
É dele.
Sempre ele.
Sempre pensando nele.
Nunca na família.
Nunca em nós duas.
Eu vou ligar.
Eu vou ligar agora.
Vou explicar.
Mas você precisa ficar comigo.
Só até eles chegarem.
Só até eu conseguir dizer em voz alta uma versão que pareça menos horrível do que o que aconteceu.
Pai, você precisa falar com ela.
Porque a mim, ela não escuta.
Pedir pra ela me entender, então…
parece até afronta.
Ela diz que capoeira não é coisa de mulher.
Que é briga.
Rua.
Homem suado gritando.
E eu fico pensando: como é que ela consegue olhar pra uma roda e ver só isso?
Porque eu vejo outra coisa.
Eu vejo corpo livre.
Vejo dança.
Música.
História.
Uma coisa antiga mesmo, sabe?
Como se antes de mim já tivesse muita gente tentando dizer com o corpo aquilo que não deixavam dizer com a boca.
Quando o berimbau toca, parece que alguém me chama.
Não pelo nome que todo mundo me deu.
Mas por um nome que eu ainda tô descobrindo.
O nome que eu tenho quando fecho os olhos e paro de pedir desculpa por ocupar espaço.
Ela chama isso de feio.
Diz que é coisa de quem não tem o que fazer.
Mas, pai, não é sobre bater em ninguém.
É sobre aprender a não cair.
Ou cair certo.
Com um jeito que dá pra levantar.
É sobre entender meu ritmo.
Minha força.
Meu limite.
Sobre meu corpo pedindo licença para existir do jeito que ele é.
E eu queria que ela pudesse ver.
As meninas na roda rindo.
Girando.
Leves como vento, mas firmes como chão.
Não tem nada de feio ali.
Tem coragem.
Se ela soubesse que capoeira me acalma…
que me conecta…
que quando eu saio de lá eu volto pra casa menos perdida dentro de mim…
talvez ela não tentasse arrancar isso de mim.
Então fala com ela.
Não por mim.
Comigo.
Fica do meu lado uma vez.
Antes que eu aprenda, também, a gingar longe de vocês.
Tá.
Tá tudo bem.
Eu mereci essa.
Quer dizer, não mereci.
Mas eu entendo.
Só me escuta.
Vocês não têm ideia de com quem estão lidando.
E eu não tô falando isso como ameaça.
Tô falando porque pode ser vantajoso pra todo mundo.
Eu sou empresário.
Conhecido.
Muito conhecido.
Se isso vazar, em quinze minutos tem repórter na porta.
Em vinte, helicóptero.
Em trinta, internet inteira decidindo quem vocês são antes de vocês terem tempo de pensar.
E aí acabou.
Acabou pra mim, acabou pra vocês.
Mas ainda dá pra transformar isso numa solução.
É o que eu faço.
Eu transformo problema em oportunidade.
O dia inteiro.
Vocês querem dinheiro?
Ótimo.
Eu sei onde tem.
Eu sei como tirar sem parecer que saiu.
Eu sei como fazer o seguro pagar.
Eu sei como montar a versão.
Só que pra isso eu preciso estar vivo.
Morto, eu não valho nada.
Quer dizer, valho manchete.
Valho investigação.
Valho polícia batendo na porta de gente que nem precisava entrar nessa história.
Vocês assumiram um risco grande.
Eu respeito isso.
Sério.
Mas risco grande precisa de retorno grande.
Não de cena trágica à toa.
A questão é simples: queremos a mesma coisa.
Vocês querem sair com dinheiro.
Eu quero sair respirando.
Então a gente fecha.
Eu faço uma ligação.
Uma.
A certa.
Vocês pegam o que precisam.
Eu fico com uma porcentagem pequena, porque aí eu viro cúmplice.
Entende?
Cúmplice não denuncia.
Cúmplice administra.
O pior vocês já fizeram.
Agora falta fazer direito.
Então desamarra uma mão.
Me dá o telefone.
E deixa eu provar que eu sou muito mais útil vivo do que morto.
Ei.
Não vai embora.
Um minuto.
Só um.
Depois você pode ir.
Pode me odiar com calma.
Pode fingir que essa conversa nunca aconteceu.
Mas agora fica.
Eu sei que eu errei.
E sei que te feri.
Não vou fazer aquela coisa covarde de dizer que foi confuso, que eu não sabia, que o momento era ruim.
Eu sabia.
Eu só tive medo.
Você chegou na minha vida iluminando tudo de um jeito que me deixou ridículo.
Eu tentei parecer seguro.
Tentei parecer intenso, interessante, acima da situação.
E, no fundo, eu tava só assustado.
Quando você veio falar comigo depois, quando disse que tinha sido especial…
eu te machuquei pra me proteger.
Falei coisas que não eram verdade.
Fiz pouco do que tinha sido enorme pra mim.
E me arrependo desde aquele dia.
O pior é isso.
Você não saiu da minha cabeça.
Eu terminei meu relacionamento.
Mudei um monte de coisa.
E fiquei esperando você se aproximar, como se a responsabilidade ainda fosse sua.
Mas você só ficou mais distante.
E eu entendo.
De verdade.
Mas não pensa que foi fácil pra mim.
Tem um monte de gente tentando entrar, tentando chegar, tentando acontecer…
e eu aqui.
Parado.
Preso em você.
O que aconteceu entre a gente foi real pra mim também.
Foi especial.
Eu só fui burro demais pra sustentar.
E agora eu queria fazer direito.
Sem pose.
Sem personagem.
Sem fingir que tanto faz.
Me dá uma chance.
Não me deixa falando sozinho.
Vem cá.
Por favor.
Então você também acha que eu sou ladrão?
Que eu limpei a conta e fugi com o dinheiro?
Claro.
É a versão dele, né?
Do Paulo.
A versão perfeita.
Faz dele o coitadinho.
E de mim, o monstro da história.
Mas a verdade é outra.
Só que ninguém gosta da verdade quando ela desmonta a família bonita da foto.
Meu pai sempre teve uma coisa com ele.
Predileção mesmo.
Comigo?
Nada.
Nem afeto.
Nem incentivo.
Só aquele olhar.
Aquele olhar de quem espera que você fracasse rápido pra confirmar o que já pensava.
O Paulo nunca foi prejudicado.
Nunca.
O papai torrou quase tudo que era nosso com ele.
Curso.
Emprego.
Negócio.
Empréstimo.
Sempre tinha uma justificativa.
"O Paulo precisa."
"O Paulo tem futuro."
"O Paulo está tentando."
E eu?
Eu ficava com o resto.
Casa.
Comida.
Roupa lavada.
E olhe lá.
Eu não roubei nada.
Nada.
O dinheiro que sobrou era meu por direito.
Era a única parte que ninguém tinha empurrado pro colo do Paulo antes.
Eu peguei porque eu precisava.
Simples.
Queria começar uma vida minha.
Queria dar alguma coisa pra mulher que eu amava.
Tava com um projeto andando.
Tava cheio de esperança.
Era minha chance.
A primeira.
Talvez a única.
E quando eu tava perto…
ele fez o que sempre fez.
De novo.
Atravessou.
Tomou espaço.
Virou vítima.
E eu virei o problema.
Então acredita nele.
Acredita se quiser.
Mas saiba de uma coisa: essa história nunca foi sobre dinheiro.
Foi sobre quem meu pai decidiu amar.
E quem ele decidiu que não merecia nada.
Engraçado.
Casa cheia faz barulho.
Mas vazio faz eco.
Eu passei a vida inteira ouvindo gente.
Filho chorando.
Panela no fogo.
Vizinho batendo no portão.
Conta atrasada.
Problema dos outros.
Sempre tinha alguém precisando de mim.
E eu gostava disso.
Gostava de sentir que minha vida servia pra alguma coisa.
Só que um dia a casa esvazia.
Os filhos vão embora.
O marido morre.
E você se pega esquentando café velho no micro-ondas porque não vale mais a pena fazer outro.
Esses dias eu abri o guarda-roupa…
e encontrei um vestido vermelho.
Trinta anos guardado.
Eu comprei pra fugir com um homem.
Ele era músico.
Ia fazer uma turnê na Europa.
Falou:
"Te encontro no aeroporto."
E eu quase fui.
Quase.
Mas fiquei.
Porque eu achei que amor era isso.
Aguentar.
Cuidar.
Se sacrificar pelos outros.
Agora eu olho pra minha vida e penso:
quem foi que cuidou de mim?
Porque enquanto eu salvava todo mundo…
eu fui desaparecendo também.
E sabe o que mais dói?
Não é envelhecer.
É perceber que a mulher que eu podia ter sido…
ainda tá me esperando naquela porta de embarque.
Não comece chorando. O texto funciona melhor quando a personagem entra quase prática, como alguém comentando uma coisa simples da casa. A emoção deve aparecer aos poucos, principalmente quando o vestido vermelho surge. Até ali, parece solidão doméstica. Depois, vira confissão.
O ponto de virada está em: "Eu comprei pra fugir com um homem."